O ano era 1993. Eu precisei fazer uma pequena cirurgia na mão. Internei no Hospital Infantil Menino Jesus aqui em SP, na ala pediátrica por ter apenas 10 anos (guarde isso) embora fosse muito grande pra idade e não ter nem cama pra mim. Uma humilhação... Foi como eu me senti. Estava em jejum desde o dia anterior e já era umas 13h quando me trouxeram uma sopa num copo plástico. Na alta por volta das 15h, minha mãe só pensava na fome que eu sentia. Na esquina da rua tinha uma lanchonete. Minha mãe me ofereceu um salgado em troca de passar por baixo na catraca - já que ela não tinha dinheiro para as duas coisas. Pedi então um pedaço de pizza de mussarela, e ela também com muita fome comeu um salgado. Enquanto eu comia, um homem começou a me perturbar. Literalmente dar em cima de mim... Falava da minha beleza, do meu corpo (de criança), da minha roupa (calça jeans e blusa branca), etc... Aquelas coisas nojentas que você imagina, mas criança não tem muita percepção. Minha mãe como leoa que era cortava o cara que também falou algumas bobagens pra ela. E ele só parou quando foi expulso pelo balconista. Fiquei em choque! Pensava no que EU tinha feito para ouvir aquelas coisas. Seria a roupa? Alguma expressão minha? Seria meu tamanho? Sei lá... Mas nunca mais fui a mesma depois daquele dia. Minhas roupas mudaram refletindo vergonha e na tentativa de esconder o que eu era. Uma pessoa. Uma menina. Uma adolescente. Uma mulher que se desenvolve como qualquer outra com características que Deus deu. Não foi eu quem escolhi!
Por longos anos usei roupas que me tornavam meio masculina. Bermudão, chinelos, camisetas, bonés, blusões... Nada que marcasse ou mostrasse demais. Lembro as inúmeras vezes em que meu pai dizia que eu tinha que me vestir diferente. Rsrsrs. Mesclava algumas coisas às vezes, mas sempre me vestia estranho.
Um dia, no curso de eletrônica, meu namorado disse pra mim: "Por que você não muda suas roupas? Você é tão bonita, mas se esconde numa coisa que você não é. Não deveria ser assim... Use o que você tem vontade". Eu já tinha 18 anos! E lá fui eu experimentar me vestir como EU queria. Quebrar o meu tabu. E é impressionante como as pessoas mudam o olhar conosco já com base na roupa!
Mas não é disso que quero falar... rsrsrs.
Enfim, quantas vezes tivemos nossa inocência violada? Nossa intimidade, nossa maturidade, nosso senso, nossa infância, nossa adolescência, nossa vida adulta, nossos gostos, nosso jeito, o EU?
Quantas e quantas crianças e até adultos, tem tido sua vida violada de forma bruta, nojenta, ignorante, por pessoas sem o mínimo de pudor e respeito?
Quantas vezes nos calamos e silenciamos em comportamentos do tipo que são feitos na nossa cara, e a gente acha que "não tem nada a ver"?
Quantas coisas poderíamos ter feito diferente, e não nos metemos porque não é com a gente.
Precisamos mudar!
O mundo está triste. Está deprimente. Está violento. Mas não precisamos ser como o mundo. Somos chamados a agir diferente e cuidar dos que precisam. Cuidemos mais das nossas crianças, nossos jovens, nossas mulheres, nossos idosos...
Quanto a mim? Não sei se mudei muito. Ainda tenho meus "conceitos". Mas nunca perdi a inocência daquela menininha que fui. Pois a criança que fomos precisa continuar a morar em nós.
"Mas, qualquer que escandalizar um destes pequeninos, que creem em mim, melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma mó de azenha, e se submergisse na profundeza do mar." - Mateus 18:6
*História real e partilhada em uma campanha Quebrando o Silêncio da Igreja Adventista do Sétimo Dia contra a violência.
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